segunda-feira, 8 de maio de 2017

Compartilhar minha época (nascido em 70 e descobrindo quem eu sou na década de 1980) com a geração Z não é fácil. O modo de abordar, minha linguagem, pode ser pela música do meu tempo, representada por bandas como Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas, Barão, Legião, Titãs, Ira, Capital Inicial e Plebe Rude, que podem mostrar o que o País vivia naquele tempo e os desejos da classe média de então.

Assim, quando o Legião Urbana gritava em Que País é este? “- Nas favelas, no Senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da Nação” era a ideia da esperança, aquela próxima a do filósofo Pascal, que colocava no futuro a nossa felicidade.

A crítica social era absurda, por meio do clássico Inútil do Ultraje a Rigor, que expunha/expõe: “A gente não sabemos escolher presidente/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente não sabemos nem escovar os dente/ Tem gringo pensando que nóis é indigente”.

E continuava com a Plebe Rude, meio marxista, quando dizia: “Sei / Não é nossa culpa/ Nascemos já com uma bênção/ Mas isso não é desculpa/ Pela má distribuição/ Com tanta riqueza por aí, onde é que está/ Cadê sua fração/ Até quando esperar/ A plebe ajoelhar/ Esperando a ajuda do divino Deus.” (Até quando esperar)

A pós-verdade, palavra da moda nestes últimos meses por conta da eleição de Trump nos EUA, do Brexit na Europa, e do plebiscito das FARC na Colômbia, já era refrão do Barão Vermelho em Maior Abandonado: “Migalhas dormidas do teu pão/ Raspas e restos/ Me interessam/ Pequenas porções de ilusão/ Mentiras sinceras me interessam/ Me interessam...”

O que o Rio está passando hoje, por conta da crise do Estado (tanto financeira como por conta de poderes paralelos do crime organizado e milícias, além da corrupção na política) já era alardeado na letra de Alagados, sucesso do Paralamas do Sucesso, que explicava: “E a cidade que tem braços abertos num cartão postal/ Com os punhos fechados na vida real lhe nega oportunidades/ Mostra a face dura do mal”.

A “rapaziada” do meu tempo então cantava com o Capital Inicial, em Música Urbana a ideia de que “Contra todos e contra ninguém/ O vento quase sempre nunca tanto diz/ Estou só esperando o que vai acontecer”. E continuamos esperando...

Mas o hino final, aquele que ficávamos esperando para gravar nas nossas fitas cassetes era Rádio Pirata, do RPM, que cravava uma ideia final: “Toquem o meu coração/ Façam a revolução/ Que está no ar/ Nas ondas do rádio/ No submundo repousa o repúdio/ E deve despertar.”

E despertou. Fizemos uma nova Constituição, votamos para presidente, tiramos um presidente. Elegemos um sociólogo, fizemos reforma na economia, elegemos um torneiro mecânico e o país cresceu, a miséria diminui, a educação floresceu para uma camada da população que nunca sonhou que poderia estudar.

Discriminações e preconceitos diminuíram. Elegemos uma mulher para presidente e a tiramos do poder. E agora? Voltamos no tempo. A banda Ira! esclarecia na música Núcleo base que: “Eu tentei fugir não queria me alistar/ Eu quero lutar, mas não com essa farda.”

Com isso, sabemos que o “pulso ainda pulsa/ E o corpo ainda é pouco/ Ainda pulsa/ Ainda é pouco,” como os Titãs abordaram, e essa angústia Kierkegaardiana continua na mente daquela geração. E que geração. E a Z? Qual é a sua música?


quinta-feira, 4 de maio de 2017

A questão do que vem a ser a ética gira em torno de buscar fundamento para decisões importantes que devemos tomar durante a nossa vida.

Quando a estudamos, temos que analisar o sentido da palavra por meio da história e esta começa pelos gregos. Estes imaginavam que nós estávamos ligados a uma ideia de mundo finito e ordenado. Logo, este mundo teria um funcionamento correto e nós fazíamos parte desta funcionalidade. Para tanto, deveríamos, então, encontrar nossas habilidades e nossos talentos dentro deste mundo organizado. Ao descobrir nossa funcionalidade dentro deste mundo perfeito, deveríamos – logo a seguir – potencializá-la, atualizá-la e, com isso, teríamos uma vida boa, seríamos homens virtuosos.

Com a descoberta de Galileu e Copérnico de que nosso mundo não tem nada de finito e organizado, então nosso padrão de conduta grego – agir de acordo com a funcionalidade do cosmos – cai por terra e, de agora em diante, o homem terá que buscar saídas, outra formas de resolver os conflitos da convivência humana, por nós mesmos, por nossa deliberação, sem esperar nada do cosmos. Tudo vai depender, então, da nossa inteligência.

Nesse momento surge Maquiavel com a ideia da consequência, de uma ética de resultado, isto é, uma conduta será ética quando produzir bons resultados. Claro que o problema que surge, de imediato, é de que se uma conduta vale pelos resultados, então ela não vale por si mesma. Então, se a consequência é ruim, a conduta também será considerada ruim. Logo, a dúvida que surge é qual será a boa consequência? Veja que a questão central é: julgar a conduta pela conduta é diferente de julgar a conduta pelo resultado.

Deste problema surgiram algumas correntes de pensamento, sendo uma delas denominada utilitarismo, onde o bom resultado será analisar a questão da felicidade, ou seja, uma consequência boa é aquela que traz a felicidade ao maior número de pessoas. Usamos muito este pensamento quando pautamos a vida por estatísticas, porcentagens.

Outra ideia foi a pragmática, que leva a entender como um bom agir, aquela conduta que permite ao ser conseguir aquilo que ele queria, que é a ideia do bom resultado. Ora, se eu consegui aquilo que eu quero, então a conduta foi boa, foi ética. O problema aqui é que ninguém se preocupa com o outro, isto é, com quem está ao seu lado, por exemplo, já que este é usado como um instrumento (uma coisa) do sucesso daquele que agiu de forma pragmática.

Algumas questões polêmicas que surgem são as seguintes: ao agir, ao praticar uma conduta, acabamos produzindo alguns efeitos na vida prática, mas não posso dar mais valor aos efeitos do que à conduta.

Se um funcionário do departamento de vendas vier a ter grande sucesso no final do mês, mas descobrirmos que ele mentiu para vender bastante, poderíamos afirmar, pelo consequencialismo, que mentir é ético? Não se pode, então, reduzir o valor de uma conduta à consequência da mesma.

Outro problema está ligado à ideia de felicidade das pessoas, da maioria do povo. Será que eu não tenho que pensar na minoria? Se abandonarmos a minoria estaremos repetindo antigos problemas dos quais poderemos lembrar, como as injustiças que foram feitas contra Jesus ou Sócrates, por exemplo.

Mas, no momento em que formos praticar uma conduta, como é que saberemos se ao agir estaremos provocando uma grande felicidade nas pessoas ao nosso redor? O senso comum demonstra que só saberemos se fizermos a coisa certa, de forma ética, só depois que agirmos, com o efeito em mãos.

Daí aparece Kant, um filósofo que vai criticar o consequencionalismo, isto é, julgar as condutas pelos efeitos que ela gera. Para ele, a conduta será ética se analisarmos a própria conduta. A conduta humana, então, deverá obedecer alguns princípios. Claro que se minha conduta gerar problemas no futuro, não poderemos fazer nada, mas quando formos praticá-la, deveremos fazer uma reflexão sobre os princípios, isto é, agir de uma forma que todo mundo possa agir, fazer da mesma maneira, de forma igual, desinteressada, portanto.

O problema do pensamento kantiano é que não dá para universalizar tudo, isto é, falar que todo mundo pensará igual, pois poderemos mentir, por exemplo, para salvar uma vida. E isto ocorre porque existem, na vida, diversos valores, e estes são complexos, isto é, cada valor possui um contrário, como explica o pensador Edgard Morin. Não existe uma tabela, uma hierarquia de valores e, portanto, não é possível universalizar tudo na vida.

O que surge logo em seguida, na história do pensamento humano, é a ideia da ética da argumentação, do filósofo Habermas. A proposta agora é a discussão de quais valores, em algum momento da vida, iremos escolher numa determinada conduta, qual dos valores da vida irá permanecer?

Claro que esta ideia surge para aqueles que não são pautados por uma religião, por dogmas, já que estes seguirão os valores escolhidos pelo seu líder. Mas, no Brasil, com a ideia do Estado laico, qual ideia escolheremos para a nossa convivência política?

Habermas propõe que a escolha deve ocorrer no debate de ideias. Percebe-se, então, que a ética nada tem a ver com estarmos ligados a um mundo perfeito dos gregos, nem a princípios universais, muito menos àqueles que geram uma maior felicidade ou consequência.

A ética será uma eterna busca de argumentação para descobrirmos o melhor princípio a ser adotado em determinada situação impactante, que o filósofo chamou de espaço público, no qual todos nós somos convidados a participar a fim de explicarmos e dizer quais regras, quais caminhos desejamos seguir.


A ideia contemporânea de ética, então, é participar da criação das regras de convivência humana e respeitá-las, portanto. Temos, então, uma perspectiva normativa e uma perspectiva aplicada. A ética hoje permite, então, mudar as regras do jogo, pois de forma coletiva podemos mudar as regras de convivência e com isso aperfeiçoar as regras do jogo.