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A Rádio Relógio da “hora da estrela” é a IA de antigamente: análise da aplicação de IA nos cursos de Direito

No romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, a desamparada Macabéa passa suas horas vagas sintonizada, ouvindo uma estação de rádio, chamada “Rádio Relógio”, que de forma contínua, trazia curiosidades científicas e fatias fragmentadas de informações. A personagem Macabéa decora as palavras difíceis, fascina-se com a precisão dos minutos emitidos a cada quarto de hora, mas infelizmente ela não tinha um repertório cognitivo, cultural e social para processar aquela enxurrada informativa.

Ela, em conversas com seu namorado Olímpico, repete as informações da Rádio, mas sem compreender a substância; ela consome a informação, mas permanece alienada do saber, do conhecimento.

Décadas após a publicação desta obra-prima, a inteligência artificial se apresenta aos bancos escolares exatamente como a Rádio Relógio descrita no livro, mas agora, no modo digital, operando o mesmo milagre de fornecer respostas prontas a indivíduos que, muitas vezes, ainda não desenvolveram a estrutura mental necessária para digeri-las.

Esse fenômeno ganha contornos dramáticos no cenário de uma faculdade de direito. Concebida e estruturada em um período anterior à revolução tecnológica, a academia jurídica foi moldada para valorizar e avaliar o produto final. Durante gerações, o ápice do aprendizado prático consistia em exigir que o estudante redigisse uma peça processual perfeita.

Ocorre que, com a inteligência artificial disseminada por todos os lugares, essa dinâmica ruiu. Se hoje o professor pede uma petição inicial ou uma contestação trabalhista, o aluno aperta um botão e a máquina entrega uma estrutura perfeitinha, formalmente impecável e fundamentada em segundos.

O estudante, contudo, assemelha-se a Macabéa: ele porta um documento reluzente, mas carece do repertório próprio para demonstrar ao docente o caminho lógico, o processo pelo qual ele chegou para finalizar a petição, as escolhas estratégicas e as premissas jurídicas que sustentam aquele resultado. Há a posse da informação técnica que a IA forneceu, mas não a propriedade do conhecimento.

Diante dessa nova realidade inevitável, manter intacto o modelo pedagógico tradicional significa condenar os estudantes à atrofia intelectual. O desafio do professor contemporâneo não é banir a tecnologia, mas ressignificar o papel do erro e do esforço humano.

Se a IA entrega a peça pronta, o verdadeiro valor do ensino desloca-se da linha de chegada para o passo-a-passo, para o meio do caminho. O melhor e mais urgente a ensinar hoje é o processo para se chegar à peça processual, e não mais a peça em si.

A avaliação pedagógica precisa recair sobre a arquitetura do raciocínio, sobre a capacidade de auditar o que a máquina produz, de identificar as alucinações jurídicas sutilmente embutidas nos algoritmos e de defender oralmente as teses escolhidas.

Se o professor exigir que o aluno disseque o percurso, justifique as escolhas e compreenda os fundamentos do Direito, a universidade conseguirá reverter a futura dívida cognitiva que irá aparecer, garantindo que a tecnologia sirva como amplificadora da inteligência humana, e não como uma versão moderna da “rádio’ que seduzia Macabéa com um saber que ela jamais poderia alcançar.

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